O DISCERNIMENTO DO SENSO DA FÉ AUTÊNTICO
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| Pe. Serge-Thomas Bonino |
O quarto capítulo constitui o ponto culminante do documento pois, como já disse, procura responder à pergunta: de que maneira, no ruído das opiniões, podemos discernir a realidade do sensus fidei? De facto, não é raro que se invoque o sensus fidelium para justificar uma resistência a certos ensinamentos do magistério, mas não podemos considerar qualquer opinião uma expressão do sensus fidei, por quanto aritmeticamente maioritária, porque «no universo mental concreto do crente, as justas intuições do sensus fidei podem estar misturadas com diversas opiniões puramente humanas» (cf. n. 55).
Como se faz para discernir? O critério é duplo. Existe um critério objectivo: a conformidade com a tradição apostólica. Uma convicção que não se possa apresentar como um desenvolvimento homogéneo da fé apostólica não pode exprimir o sensus fidelium. Mas o documento ocupa-se sobretudo dos critérios subjectivos, isto é, das qualidades exigidas aos crentes a fim de que sejam verdadeiramente «objectos» do sensus fidelium. Tais critérios resumem-se numa só palavra: eclesialidade, isto é, participação activa na vida da Igreja.
Estes critérios de discernimento são aplicados a duas realidades importantes. Antes de tudo, o documento realça que a religiosidade popular, embora deva ser sempre evangelizada e mais «eclesial», constitui uma expressão privilegiada do sentido da fé. Depois, trata das relações entre sentido da fé e opinião pública. Sem dúvida, a opinião pública é essencial para o funcionamento das sociedades democráticas fundadas na soberania popular. Mas, mesmo que a Igreja reconheça os valores da democracia, é claro que nenhum modelo político secular poderia determinar a sua estrutura nem a sua vida interna.
A opinião pública, apesar de ter um lugar próprio na Igreja, não pode desempenhar nela o mesmo papel que desempenha nas sociedades seculares. Além disso, a história demonstra que o sensus fidei autêntico com frequência foi mantido por um «pequeno rebanho» fiel aos ensinamentos evangélicos. De qualquer forma, «consultar os fiéis», segundo a fórmula clássica de John Henry Newman, é uma prática sadia e tradicional que contribui para a vitalidade de uma Igreja que anuncia o Evangelho.

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